18 de maio de 2008

DAS COISAS SÉRIAS

Tenho verificado ao longo dos anos que os portugueses têm especial apreço pelas pessoas "sérias". Não as honestas ou francas, mas aquelas que fazem afirmações públicas de rosto severo. Ou que em vez de produzirem pensamento próprio preferem repetir o que leram nos manuais escolares, sobretudo nos de Filosofia de 11º ano.
Eu confesso que não tenho dado mostras desta razoabilidade medíocre. Mas há um tempo para tentar tudo.
Assim, aqui fica este vídeo de uma das nossas maiores referências. Alguém que diz aos outros como estar na vida. Sem as hesitações de quem pesa o passado, o presente e as hipóteses de futuro.
Quem sabe se um dia a nossa imprensa não dará tanta atenção às palavras de um escritor como de momento lhe dá a ela....

16 de maio de 2008

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO MERCADO

Dizem-me, por telefone, que fui comprado pela Leya. Eu e os outros que confiámos na Oficina, na Caminho, na D.Quixote, etc. Não sabemos nada do assunto, claro. Nem me parece que dessa venda reverta alguma coisa para as fontes de produção, vulgo, os escritores. Há-de ser mais uma coisa tipo escravos. Toma lá este que é bom para cortar cana, e esta que é boa parideira e passa para cá os luíses. Sobre este assunto, muita coisa terá de acontecer até que a poeira assente.
Entrentanto, a APEL faz finca-pé nos pavilhões nojentos onde nos recebe ano após ano. Para não haver ricos nem pobres, somos todos pobres. Era bom que tivessem juízo, nesta questão estético-ética.
Quem parece estar "atento ao mercado do livro" é o ministro da cultura. E contente, também, segundo os jornais (que a realidade raramente se compadece com a matéria escrita). Segundo os pasquins, José António Pinto Ribeiro, diz ver "com bons olhos" a constituição de monopólios editoriais (...) e que "o mercado do livro está em mutação acelerada e a concentração de editoras em grupos empresariais é um factor de desenvolvimento da língua portuguesa e da sua divulgação".
Ou está a precisar de mudar de lentes ou eu - citando uma directora de produção amiga - não estou na posse de todos os dados...

14 de maio de 2008

GLOBOS DE OURO

Enquanto não arranjo tempo para publicar um vídeo clandestino (lol), vou adiantando que fui (primeira e última vez) à festa dos Globos de Ouro. Sim, de smoking. Sim, alugado. Não, não foi barato e sim, estava horrível :)
É um espectáculo a não perder. Desde o povo que veste o seu melhor fato para se ir colar às baias que separam, na rua, a passadeira vermelha e as estrelitas, do resto ( e que gritam à desmesuradamente alta, loura... e igual a tudo o que se imagina, Bibá Pita!: "Ai linda! Bibá, um autógrafo!")até à Cinha Jardim, a dar golpes na fila do bufet, passando à frente de toda a gente como se estivesse na faculdade e o jantar fosse frango...
Mas o prémio da noite foi atribuído, mais uma vez, à inenarrável tia Bobona. O seu chapelinho prateado de palhaça arrebatou qualquer tentativa de destaque de Bárbaras, meninas de telenovelas e socialáites profissionais.Podem-lhe chamar bobona, mas para mim, será sempre uma senhora de se tirar o chapéu... (imaginem esta frase com música de circo...).
Oh, valha-me Santo António dos Cavaleiros!

11 de maio de 2008

O QUE VEM DE CIMA

Ontem levei com o armário de parede na cabeça.
Para quem não tenha experiência, conste que basta uma parede de um prédio antigo onde as buchas e parafusos agarram a custo, uma colecção de copos, chávenas e garrafas e estar por baixo na hora errada.
O resto resume-se a um barulho ensurdecedor, a vida a passsar diante dos olhos e uns galos na testa.
Bom, é bem verdade que eu queria mudar de copos, mas escusava de ser tão radical...

5 de maio de 2008

REGRESSO

atarantado às lides. Ainda com os olhos habituados a ver filme sobre filme. Os pés no vício de percorrer a Avenida de Roma, rua abaixo, rua acima. O divertimento de subir ao palco e inventar disparates para pais e criançada, antes do assunto sério que são os filmes e os concertos. Ou de trabalhar para fazer sentir a espectadores e realizadores que o Indie é primeiro que tudo, uma festa. A festa do cinema que existe por paixão, ano após ano.
Pronto, amanhã recomeça a vida.

28 de abril de 2008

SINAL VERMELHO DE OCUPADO!

Amigos, por mais uns dias, não posso falar.
Por razões indies, naturalmente.
Volto assim que sair do coma cinematográfico, a 4 de maio.

22 de abril de 2008

NÃO, NÃO É NORMAL

O actual Secretário de Estado dos Desportos (creio que a designação andará por estes lados) declarou ter herdado uma dívida de 2 milhões de euros, do governo Santana Lopes, destinada a subsidiar as corridas de fórmula 1 de um piloto português. Pareceu-lhe "normal" honrar este compromisso, além das consequências jurídicas que teria não o fazer. 400.000 contos, em moeda antiga, para a gasolina do menino.
Se houvesse alguma dúvida sobre a imbecilidade irresponsável de Santana Lopes, bastaria isto. Infelizmente não há. Num país civilizado, a quantidade de actos danosos praticados por este político já o teriam metido na cadeia. Cá, "é normal". A tal ponto que já está de novo, no parlamento (e até "pondera" voltar a candidar-se à liderança - por assim dizer - do seu partido).
Mas voltando aos 2 milhões de euros, quando penso na relutância em se apoiar uma bolsa literária de mil euros, com a desculpa que bem podem os escritores ir trabalhar que quando voltarem para casas ainda lhes sobram muitas horas para a brincadeira, e que permitiria fazer um bocadinho de luz neste mundo confuso, não sei que diga... Ou que não quando não apoia atletas de modalidades menos televisivas e que insistem em ganhar medalhas de ouro. Que gente é esta, que propõe o luxo e nega a necessidade? Que gente é esta que "honra compromissos" com a futilidade, mas não os assume com quem aumenta a qualidade deste país.
Eu disse "pais"? Pois disse. À falta de melhor expressão.

20 de abril de 2008

INDIE

Começa na próxima semana.
É sempre espantoso o que uma equipa mínima consegue fazer. Está cada vez maior nas apostas e reconhecimento nacional e internacional. Do meu ponto de vista, é um case study nacional, porque conseguiu em 4 anos (5 edições, com apoios mínimos institucionais (lembre-se que em todos os concursos, anteriores a 2007,de apoio à elaboração de festivais de cinema, recebeu muito menos do que, por exemplo, Vila do Conde (curtas) ou Fantasporto (cinema fantástico))tornar-se no festival com mais público do país. E os festivais não se fazem para os amigos, fazem-se para as pessoas.
É verdade que estar em Lisboa, onde os jornalistas quase todos moram, gostando a a maioria muito pouco de se mexer, ajuda. Mas está longe de ser a razão principal. Qualidade e trabalho são o segredo deste sucesso. Nacional e internacional. Este ano, por exemplo, as extensões previstas chegam a 8, em diversas cidades europeias e americanas.
Nem foi preciso gastar o dinheiro dos apoios em publicidade paga na Variety, ou em stands de luxo, em Cannes. Foi só preciso trabalhar... e perceber de cinema.

Mais informação aqui.


ps: claro que o melhor do festival é o IndieJúnior. Mas não contem o segredo à imprensa ;)

18 de abril de 2008

QUASE UMA DA MANHÃ

Tenho uma encomenda de texto em atraso. É tarde na noite. Para quem teve pouco tempo para dormir, a madrugada passada.
Tenho um texto para escrever.
E só uma frase: "No meio de uma sala a cheirar a cera, há uma gaiola dourada com uma mulher dentro"...

16 de abril de 2008

CONRAD

Por razões misteriosas, o livro O CORAÇÃO DA TREVAS, do Joseph Conrad, escapou-me todos estes anos. Andou ali pela prateleira, em edição de saldo, e nunca o tinha lido. Conhecia outras obras do autor e a devoção que tanta gente tem por ele. Mas não tinha calhado.
Peguei-lhe agora. E, embora, a tradução me pareça fraquita, basta uma descrição destas, para um escritor/leitor se pôr de joelhos:

"Uma rua estreita e deserta que mergulhava em profunda sombra, edifícios altos, inúmeras janelas com persianas, um silêncio de morte, erva a crescer entre as pedras da calçada, à esquerda e à direita imponentes entradas de carros, portas imensas de dois batentes, sinistramente abertas."

15 de abril de 2008

A DESCOBERTA DA PÓLVORA QUANDO ELA NOS ESTOURA NA CARA

Um pateta apresentava na tv, uma notícia de telejornal que começava assim: "Há AGORA um novo fenómeno nas escolas chamado "bulling", a violência de alunos contra outros alunos". Na verdade, a notícia deveria ser: "Há agora um novo tipo de jornalistas chamados "ignorants-no-brain-at-all".

Só alguém muito estúpido, ou muito distraído, pode pensar que o bulling é um fenómeno novo. Como se diz nos livros fraquinhos "desde tempos imemoriais" que rapazes torturam rapazes e raparigas outras raparigas, pelas mais diversas razões. Por serem gordos, ou feios, ou filhos de pais divorciados, ou pobres, ou efeminados, ou masculinizados(as), ou apenas por serem mais fracos e não se saberem ou poderem defender. As torturas podem ser físicas (como um rapaz transmontano que um dia me escreveu) ou psicológicas, ou um misto das duas. Desde sempre que pudemos encontrar miúdos encolhidos em recantos escuros da escola, à espera que toque para entrar, ou que todos já estejam vestidos no balneário, ou a correr para casa, antes que seja tarde de mais.
Sempre assim foi e, provavelmente, sempre assim será. Porque a infância e a adolescência não são apenas aquela coisa perfumada e inocente em que gostamos de acreditar, mas sim, a porta de entrada da crueldade ou da bondade humanas. Apenas com menos filtros. Como o tabaco em bruto.
Eu próprio fui vítima de bulling entre o 8º(2 vezes) e o 9º anos. Passei de melhor aluno da turma, a pior, do mais alegre ao mais calado. Fui perseguido e torturado psicologicamente por vários grupos de indivíduos, "inocentes-a-precisar-de-recuperação", como o ministério da Educação agora os definiria - que aproveitavam todas as oportunidades para me fazer sentir que não passava de uma nódoa insignificante no passeio. Estou hoje, aqui, vivo, apenas porque calhou. Porque a vida deu uma súbita guinada para o lado feliz, quando eu já não pensava senão em acabar comigo. Conto isto, sem particular nota de dramatismo, porque conheci tantas e tantas pessoas que passaram pelo mesmo. Era normal, nesse tempo. Algumas delas não se aguentaram e, da terra de onde venho, o suicídio não é uma palavra estranha.
Não, senhor jornalista, o "bulling" não é novo. Só a palavra. Antigamente chamava-se era "crueldade".

12 de abril de 2008




Estive a pensar o que dizer sobre o dia de hoje. Encontrei esta imagem.
O tipo descalço fora do quadro sou eu.

8 de abril de 2008

ENCORAJAR

Leio no rodapé de um jornal televisivo que o ministro da Cultura iniciou a sua estratégia de encorajamento às artes. Parece-me bem. Tenho defendido desde há muito a necessidade de se descer do palácio de Queluz aos ateliers dos artistas, já para não dizer subir aos andares elevados das zonas pobres da cidade, onde a maioria habita.
O novo ministro começou por dirigir uma palavra de apreço aos galeristas "por fazerem a ligação entre a Cultura e as Finanças". Bom, esperemos que depois de despachada a agenda pessoal sobrem incentivos vocais (ao menos) para quem DE FACTO cria.

7 de abril de 2008

FIZ ANOS, OUTRA VEZ

Raios partam a ocorrência. Enfim, adiante. Em última análise, sempre sobra o bolo e o vinho que os amigos trazem para o jantar. Sobra, igualmente, a pilha de pratos para lavar, para os que têm a mania que a comida só existe sobre pratos de louça, não reconhecendo a existência ao plástico.
À medida que o tempo passa, as nossas características tornam-se mais claras. O que somos, o que fomos, e o que queremos ser amanhã, que é o dia antes de depois-de-amanhã. Uns sonham tornar-se ricos e conhecidos. Outros esperam apenas reconhecerem-se ao espelho. Olharem o reflexo e verem a pessoa íntegra e solidária em que todos os dias trabalham para existir ou manter-se.A coincidência entre o que idealizam e a realidade. Com menos peso ou cabelos brancos, ainda assim.
Fiz anos, outra vez. Raios os partam. Tantas vezes 26, já chateia. Mas ao mesmo tempo, tenho vontade de rir, porque a brincar, a brincar ainda flutuo à superficie.

3 de abril de 2008


UMA DOSE DE PERSISTÊNCIA, APARECER NO LUGAR CERTO E UM CARÍSSIMO LOOK TRENDY....

São os ingredientes para triunfar nos meios culturais portugueses. E perceber que a notícia do desaparecimento de uma iniciativa ou da perda de um lucrativíssimo lugar de chefia, são sempre altamente exageradas.
A Experimenta Design acaba de assinar um protocolo com a Câmara de Lisboa e com o Ministério da Cultura que assegura ao evento 2, 7 milhões de euros para as 2,5 edições (a próxima é uma parceria com Amsterdão).
E ainda há quem diga que pagar cabeleireiros caros e fashion designers, e aparecer em todas as reuniões públicas entre o Poder e a cultura, não resulta.
Viagens em executiva, mundo fora: here I go!

PS: a minha frase favorita no site é "Não será demais voltar a dizer que a ExperimentaDesign – Bienal de Lisboa é:"

29 de março de 2008

EDUCAÇÃO: OS PAIS PODEM AJUDAR!

Estamos todos de acordo: a educação em Portugal depende dos pais.
Por isso, depois de uma grande consulta aos seus associados, a Associação de Pais Relax de Portugal, lançou este spot, que contém todos os valores que interessam aos Novos Portugueses.
E... Em Inglês, porque como toda a gente tinha tido nega a português, prontos... como que a gente havemos de explicar isto mais bem...?

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

No meio de todo este clima de acusação de que as escolas estariam cheias de putos ignorantes, a nossa juventude já se organizou. Depois de dias e dias de pesquisa em sites da internet, apresentam este... relatório. Ainda há esperança!



27 de março de 2008

NA MORTE DOS NOSSOS BICHOS

A coisa não começou bem. Era Maio de 98 e o cachorro não parava quieto na casa de cartão maravilhosa que se lhe tinha arranjado para a viagem. Não tinha feitio para estar preso e viajar de carro 150 km não era bem a sua ideia de divertimento. Restava pouco do cão fofinho e branco quando lhe peguei, amaldiçoando a hora em que me tinha lembrado de arranjar um cão para a minha filha; vociferando com os deuses por terem criado uma raça de intestinos e paciência obviamente moles. Sujou a caixa em que vinha, sujou-me os assentos e deve-me ter sujado a mim. Mas o final da viagem foi mais tranquilo com o Droopy a dormir com a cabeça na minha perna. Sem cinto, claro.
E assim começou tudo. No meio do campo, entre sobreiros e ervas. Um caniche que se imaginava um cão-pastor e muito maior do que na realidade era. Nunca teve medo de rafeiros alentejanos, emprenhou altíssimas cadelas e a sua mancha branca vai-me aparecer sempre, como um fantasma pelo caminho de terra que conduz à casa.

Quando os bichos nos morrem, muitos anos depois de termos decidido corresponder ao seu afecto sem reservas, nunca se consegue bem explicar aos outros humanos, que foi mais um amigo que se perdeu. A morte é sempre pessoal, por isso toca os outros de uma forma mais mitigada. E ainda bem que assim é, porque alguém deve sobrar para nos consolar.

Corre, Droopy, corre. Pelo meio das ervas que algures estarão reservadas para ti, debaixo de um céu qualquer que a gente já não consegue ver. Ladra contra os gigantes e faz a tua vida, para sempre independente. Mas que alegria, amigo, se quando chegasse a nossa hora te víssemos vir a correr, feliz, ao nosso encontro...

24 de março de 2008

UM BOCADINHO DE MÚSICA COUNTRY PARA QUE NÃO SE PENSE QUE ESTE NÃO É UM PAÍS PARA VELHOS

O PROBLEMA DA INVISIBILIDADE

Grande cagaçal à volta do coming out da apresentadora do Curto-Circuito, da Sic Radical. Quem costuma ver o programa (ainda que, por questões etárias, apenas de vez em quando) sabe que é uma das mais antigas e competentes apresentadoras do CC.
Os comentários no site do Expresso são mais do que reveladores da razão pela qual a Solange fez muito bem em vir dar a cara. A maioria prima por afirmar que "isso é um problema dela" e que "não deveria vir falar do assunto, porque se fosse heterossexual, também não vinha". É verdade. O problema é que essa "invisibilidade" também é uma forma de preconceito. Um rapaz e uma rapariga que se beijam no Metro será quanto muito "uma chatice". Duas raparigas "um escândalo que tenta convencer o mundo inteiro a ser gay".
Oh, valha-me Deus...
A Solange fez muito bem em vir dar o seu exemplo. Para que os milhares de raparigas que sofrem, caladas, no meio das suas famílias e amigos, abram os olhos. Que se limitem a ser elas. Quer eu goste, quer não. Dizer até que já ninguém tenha paciência para dar importância ao caso. Até que se vulgarize o que nunca deveria ter sido invulgar: a singularidade do espírito humano.

ps1: mais corajoso do que ter vindo dizer-se lésbica, foi o facto da pobre rapariga ter resisitido à produção de moda que lhes fizeram. O Expresso está definitivamente a tentar ficar para a História como o jornal com as produções de roupa e cabelos mais nojentas do planeta.

ps2: Epá... Este comentário foi um bocado gay... Alto será que não tenha o Expresso à perna a perguntar-me se não quero tirar umas fotografias vestido de Carmen Miranda para o próximo número ;)